Presidente e Presidente (a)

30/12/2015

 

 

 

 

 

 

 






Muitos brasileiros devem estar se perguntando qual a diferença entre Dilma e Collor. Porque à pergunta induz a manifestação da Presidente da República, ao comentar a admissão do processo de impeachment que a atormentará a partir de agora. Talvez parte das preocupações mal disfarçadas diante das câmeras de televisão decorra da absoluta obediência aos ritos legais. No despacho de Eduardo Cunha, pelo menos por enquanto, não há o vislumbre de qualquer irregularidade. Seja em termos regimentais, seja quanto à legislação em vigor, seja ainda do ponto de vista constitucional.

Dilma, como qualquer autoridade investida de cargo do Executivo, está sujeita às mesmas regras que puseram Fernando Collor de Mello fora do Planalto. Como, de resto, devem submeter-se aos preceitos legais todos os cidadãos, abrangidos por cláusula pétrea de nossa Constituição: todos são iguais perante a Lei.

Admitam-se como legítimas as caras feias, a aparência de indignação e o desconforto por ver-se ameaçada de perder o mandato. Afinal, Dilma Rousseff é um ser humano. Se por vezes simula distância dos sentimentos experimentados por todos os mortais, isso deve ser levado à conta de que a ocupação do mais alto posto leva o ocupante a equívocos. Como o de julgar-se acima do bem e do mal e - pior, ainda - da ordem jurídica.

Esperava-se, como ainda ocorrerá repetidamente, o recurso à identificação do processo que se iniciará dentro das normas constitucionais, com um golpe de Estado. Nada mais falso, por esperado que fosse...

Os que têm boa memória ou contam mais de vinte anos de idade têm nítida em sua mente as imagens vociferantes dos petistas, na ânsia de por na rua o ex-caçador de marajás. Àquela altura, o Partido dos Trabalhadores reunia as esperanças da maior parte dos brasileiros, mais tarde completadas na ascensão de Luís Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto.

O que se viu, desde então, não precisa ser repisado. O Ministério Público Federal, a Polícia Federal e o Poder Judiciário põem a nu escândalos que, comparados aos de Fernando Collor de Mello, tornam os maus feitos (com a vênia da atual Presidente) do alagoano coisa de amadores. Ou delinquentes desastrados. As cifras são incomparáveis.

Por que, então, o atual senador e aliado do governo Dilma pode ser cassado e a invenção de Luís Inácio Lula da Silva não pode? A diferença entre calças e saias não pode desmerecer a letra constitucional. Até aonde a vista de qualquer pessoa atenta alcança, está apenas nessa particularidade a distinção entre um e outra.

Por que a derrubada do proprietário da Casa da Dinda foi reivindicada, aplaudida pela população e bem-sucedida, e a tentativa de defenestrar Dilma Rousseff não é mais que um golpe?

Ambos foram eleitos com expressivo número de votos. Ambos prometeram governar segundo os ditames da Constituição em vigor. Ambos mudaram dispositivos constitucionais aos quais haviam jurado fidelidade, cuidando para ter à sua disposição grau mais amplo de discricionariedade. Finalmente, ambos deixaram-se levar pelo deslumbramento do poder, como se não fossem mais que sobas vestidos com a faixa presidencial. Deu no que deu. Em ambos os casos.

Agora, Dilma deve preparar-se para ver o povo nas ruas. A caminhada que pode levar ao impedimento da Presidente não exclui a repetição da mobilização antes liderada pelo PT. O \"fora Collor!\" tem chances de repetir-se, trocado apenas o nome próprio do rejeitado. Desde criança, ouvi dizer que nada melhor que um dia após o outro. Com uma noite pelo meio, acrescentavam os mais mordazes.

Pois é chegada a noite de Dilma, Lula e tantos quantos não esgotaram seu repertório de maus-feitos (perdoe-me, Presidente, a repetição!). Se pensavam que os pequenos avanços sociais alcançados nos últimos doze anos os absolveriam de todo e qualquer constrangimento, esqueceram-se de que o País já deixou para trás o complexo de vira-lata tão bem caracterizado por Nélson Rodrigues.

Para os brasileiros, a miséria, a fome, o desemprego, o favor oficial deixaram de operar sobre suas consciências. Ainda mais porque, dando com a mão direita e tirando com a esquerda, os governantes esqueceram do crescente sentimento de cidadania que passou a perpassar pelo julgamento dos eleitores. E dos que, jovens demais, já se aprestam para votar.

Que venha o processo do impeachment - digo eu, quando quem deveria dizer isso é Dilma Rousseff. A diferença entre nós é que não ocupo o cargo de Presidente da República, nem devo sequer um centavo dos impostos que me são cobrados.

Paulo Lima - jornalista e editor-chefe Primeira Mão Notícias


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