Cientistas descobrem vírus causador da morte em massa de tilápias

06/04/2016

Primeira Mão Notícias - foto divulgação

 

 

 

 

 

Desde 2009, uma doença desconhecida vem dizimando as tilápias do lago Kinneret

Cientistas descobriram que um novo vírus é responsável por uma misteriosa doença que atinge tilápias, a segunda espécie de peixe mais cultivada no mundo, especialmente em países da Ásia, América Latina e Oriente Médio.

Desde 2009, uma doença desconhecida vem dizimando as tilápias do lago Kinneret, em Israel, também conhecido como Mar da Galileia, com taxas de mortalidade que variam de 70% a 85%. Dois anos depois, o problema surgiu também no Equador e na Colômbia, despertando preocupações em relação a um mercado que movimenta US$ 7,5 bilhões anualmente em todo o mundo.

Em um artigo publicado nesta terça-feira, 5, na revista científica online mBio, da Sociedade Americana de Microbiologia, uma equipe de cientistas demonstrou que a causa da mortalidade de tilápias é o Vírus da Tilápia Lacustre (TiLV, na sigla em inglês). O estudo também estabelece a base para o desenvolvimento de uma vacina capaz de proteger os peixes do vírus.

"A tilápia é uma das mais importantes indústrias de piscicultura em todo o mundo. Por se alimentar de algas, esse peixe é também importante guardião ecológico da água doce. Além disso, é um fonte barata de proteína para países mais pobres", disse um dos autores do estudo, Eran Bacharach, virologista molecular da Universidade de Tel Aviv (Israel).

Quando a doença começou a matar em massa as tilápias no Equador, em 2011, os cientistas imaginaram que o fenômeno não tinha relação com a mortandade de peixes em Israel, detectada dois anos antes. Enquanto os peixes em Israel apresentavam sintomas no sistema nervoso, as tilápias do Equador tinham sintomas no fígado.

No fim de 2012, cientistas que trabalhavam com as duas epidemias enviaram amostras de peixes mortos para o laboratório de Ian Lipkin, da Universidade Columbia (Estados Unidos), um especialista na descoberta de novos vírus.

A abordagem convencional da equipe de Lipkin para rastrear um vírus que causa uma determinada doença se baseia na análise de sequências genéticas do sangue, fezes ou tecidos do animal doente, com remoção de todas as sequências genéticas encontradas em animais normais, para comparação com uma base de dados de sequências conhecidas.

Mas, no caso das tilápias, o que o grupo de Lipkin encontrou não se encaixava em nenhuma das sequências virais conhecidas. Em vez disso, eles encontraram 10 curtas sequências genéticas de RNA. "Era um projeto atípico de descoberta viral. Quanto mais nós estudávamos as sequências, mais ficávamos convencidos de que elas representavam um vírus completamente novo", disse Lipkin.

Nove dos 10 segmentos genéticos encontrados não compartilhavam semelhanças com nenhuma outra proteína viral conhecida. Um dos segmentos parecia vagamente similar a uma proteína do vírus influenza C. Os 10 segmentos também tinham sequências semelhantes no início e no fim, uma característica típica de vírus segmentados.

A equipe de cientistas mostrou que o vírus se autorreplica no núcleo das células dos peixes. Essas características os levaram a classificar o TiLV como ortomixovírus, relacionado a famílias de vírus como o influenza.

Os cientistas também mostraram que o vírus expressa 10 proteínas, que correspondem aos 10 segmentos genéticos identificados. Ao sequenciar os vírus que circulavam no Equador e em Israel, eles demonstraram que se trata do mesmo vírus causando a mortalidade de tilápias nos dois países, apesar da enorme distância geográfica.

Como os vírus dos dois continentes têm sequências genéticas praticamente idênticas, Bacharach acredita que ambos são provenientes da mesma fonte. Ainda é um mistério como o vírus atravessou metade do planeta entre Israel e Equador. Também não se sabe em qual dos dois países ele teve origem.

"Nossa pesquisa forneceu o primeiro meio de detecção. Conhecer a sequência genética do vírus é o primeiro passo para desenhar testes diagnósticos", disse Bacharach. Esses testes, segundo ele, vão permitir que os criadores detectem quando o vírus estiver presente em um tanque comercial, possibilitando que seu alastramento seja limitado.

"Construir uma vacina será uma maneira de economizar bilhões de dólares e de preservar uma indústria que garante emprego, renda e segurança alimentar no mundo em desenvolvimento", disse Lipkin.

Nas próximas semanas, o grupo publicará um novo estudo sobre a relação entre o TiLV e um surto de mortalidade em massa de tilápias na Colômbia.

A equipe de 18 cientistas que participou do projeto representa cinco instituições em quatro países: o Centro de Infecção e Imunidade do Centro de Genoma de Nova York (Estados Unidos), a Universidade de Tel Aviv e o Instituto Veterinário Kimron (Israel), a Universidade de Edinburgo (Escócia) e a Universidade St. George (Granada). Com informações do Estadão Conteúdo. 

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