OPINIÃO: Ainda pode piorar

15/04/2018

Primeira Mão Notícias 

 

 

 

 

 

 

OPINIÃO: Ainda pode piorar - por Paulo Lima

Espero não produzir, em futuro próximo, texto de protesto contra a injustiça cometida contra um amigo, um parente ou alguém que nunca terei visto. Porque o arbítrio nega-se a escolher dentre suas vítimas a que realmente deve contas à sociedade. Esta, na maioria das vezes, sequer passa pela preocupação dos que usam do autoritarismo e do preconceito para escolher os que serão punidos. Tem sido assim em todo estado autoritário, de Hitler a Fulgêncio Batista, de Médici a Somoza.

Espero que os rejubilados inimigos de Luís Inácio Lula da Silva sejam poupados de sofrer, diante do obscurantismo, as mesmas consequências sofridas pelos pobres, prostitutas e pretos. Seria bom, contudo, que não contassem que o aplauso e a cumplicidade aos atos arbitrários lhes servirão de salvo-conduto. Porque se há algo que detenha o crescente autoritarismo em que vimos mergulhando, nem mesmo a conivência se credencia a sê-lo.

O cenário que se desenha no ambiente político-institucional brasileiro jamais esteve tão ameaçador, nos últimos 30 anos. A pregação do ódio, o uso da mentira nas redes sociais, mas também nos meios de comunicação ostensivos não poderiam conduzir a panorama diferente. Ao invés de aprendermos com a História, temos sido capturados pelos mais torpes e vis interesses, o que poderá levar-nos de volta à caverna.

No âmbito das leis sociais, estamos em marcha batida na direção de uma escravatura reinventada. No campo da segurança individual, a defesa dos cidadãos cedeu lugar à ação nefasta de milícias postas à disposição de traficantes e delinquentes de toda sorte. O ambiente político não desafina. Até porque muitos dos ingredientes da tragédia brasileira são fruto pensado e implantado pelos que lograram um mandato ou uma posição de mando, em si mesmos um logro a todo um povo.

Importa pouco que a mais recente vítima do ódio seja o ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva. Sua condenação, e agora sua prisão, certamente não correspondem aos crimes a ele ostensivamente atribuídos. O apartamento do Guarujá e o sítio de Atibaia são mero pretexto. Não fora assim, quase toda a equipe que cerca o Presidente Michel Temer (com ele mesmo à frente de todos) leriam o respectivo mandado de prisão. Não é o que ocorre.

Em todo caso, uma lição já se pode tirar de todo esse lamentável episódio. Não, exatamente, pelo que de benéfico trouxe à sociedade, mas pelo seu contrário. Refiro-me à capacidade de a justiça ser célere, quando isso atende aos interesses dos encarregados de distribuí-la. A rapidez com que Sérgio Moro expediu o mandado de prisão é excepcional e, mais que atrair aplausos, mostra quão cega é a Artêmis cultuada pelo magistrado curitibano.

Enquanto isso, os outros denunciados arranjam-se para aprofundar a desmoralização do Poder Judiciário Brasileiro. A seu favor, muitos dos atuais ocupantes das celas nas penitenciárias podem alegar também serem credores do favor feito a alguns dos que sentam, togados, no mais alto tribunal.

Não falta, sequer, o ingrediente mais inquietador: a intervenção militar, que não se restringe às favelas do Rio de Janeiro. Ela percorre, também, as ondas da internet, emitindo sinais de que tudo pode voltar como antes no quartel dos atuais Abrantes.

Paulo Lima, editor-chefe deste site,  é jornalista, professor e empresário

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