Brasil tem que ter mais leitores e menos escritores, diz Sant'Anna

27/07/2018

Primeira Mão Notícias - foto divulgação

 

 

 

 

 

 

Brasil tem que ter mais leitores e menos escritores, diz Sérgio Sant'Anna na Flip

Foi em tom de conversa na varanda o encontro do decano Sérgio Sant'Anna e o estreante Gustavo Pacheco, na noite desta quinta-feira 26 de julho, na Flip. Os dois discutiram sua relação com a criação dos contos e as particularidades da narrativa breve –num encontro marcado por risos e aplausos. Em dado momento, o mediador do debate, o jornalista Guilherme Freitas, perguntou aos dois como se relacionavam com a literatura contemporânea.

Depois de dizer que lê tanto obras brasileiras quanto estrangeiras e contar que recebe muitos lançamentos em casa, Sant'Anna, um dos maiores autores brasileiros em atividade, arrancou risos da plateia ao disparar: "Não tenho tempo de ler esses livros todos. Tenho a opinião de que no Brasil está se escrevendo demais. O Brasil tem que ter mais leitores em menos escritores".

A modéstia do autor de 76 anos, quando questionado sobre sua produção, fazia parecer fácil a arte da narrativa breve –mas Sant'Anna é um escritor com tratamento rigoroso da linguagem. "Literatura é um ato de tremenda liberdade. Parece imaginação e é real. Parece real e é imaginação", disse.

O autor arrancou risos da plateia ao contar que optou por ser contista e não romancista porque se angustia ao escrever -e que, por isso, não seria bom escrever algo mais longo. Ele, que publicou sete livros nos últimos cinco anos, afirmou ainda que quer escrever menos -embora o desejo de produzir permaneça.

"Tem a questão da qualidade de vida. Escrever me angustia. E eu não estou a fim de sofrer tanta angústia assim. Estou a fim de aproveitar o meu tempo com prazer", afirmou ele. Já Gustavo Pacheco, que lança na Flip "Alguns Humanos" (Tinta da China) e tem despontado como uma das revelações da literatura brasileira, contou que Sant'Anna foi o primeiro escritor de carne e osso que conheceu, quando ainda era adolescente e estava na escola.

"Eu perguntei: 'Os livros são tão caros no Brasil. Você como escritor não se preocupa com isso?'. E ele respondeu: 'Não, eu me preocupo em escrever e isso já é o bastante'." Sant'Anna completa, em 2019, 50 anos de carreira literária. Questionado sobre como via o envelhecimento, ele destacou a importância que os textos autobiográficos passaram a ter para si. Ele destacou o conto "Vibrações".

"Há as vivências de infância, minhas ruas de bairro de Botafogo, a minha paixão pelo Fluminense. É um privilégio. É como se você vivesse duas vezes. Uma quando você viveu, que é alucinadamente rápido, outra quando você escreve", afirmou. Sant'Anna contou ainda como acha que chegou a uma voz própria em sua literatura -e que se sente mais influenciado pelas artes plásticas do que por contistas do passado.

A mesa começou com uma homenagem ao escritor carioca Victor Heringer, morto em março deste ano -um vídeo projetado no telão o exibia lendo um poema de Hilda Hilst, aplaudido ao final. A curadora Joselia Aguiar contou que planejava convidá-lo para esta edição da festa literária. Com informações da Folhapress.

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